Lavradores maus (outra visão)

Vinhateiros homicidas, autor não identificado
Depois de tudo isso, ele mandou o seu próprio filho, pensando: “O meu filho eles vão respeitar.” Mas, quando os lavradores viram o filho, disseram uns aos outros: “Este é o filho do dono; ele vai herdar a plantação. Vamos matá-lo, e a plantação será nossa.” Mateus 21.37-38

Se existe uma tentação que trazemos do berço é aquela que nos faz querer possuir tudo à nossa volta. Tanto é assim que algumas das primeiras palavras que as crianças pronunciam são essas: É meu!  Depois disso, é a minha escola; a bola é minha, então o time é meu; é a minha mãe e o meu pai, não dos meus irmãos etc. No nosso contexto também não é diferente, posto que estamos sempre pensando que a igreja é nossa, então tem que ser do jeito que nós gostamos. Caso contrário, procuramos outra.

A parábola contada por Jesus, guardadas as devidas proporções, reflete um pensamento coletivo acerca de patentes e propriedades. Patentes e propriedades que as pessoas têm como posse exclusiva e inviolável. No Brasil, os nossos índios já se utilizavam há milênios de algumas substâncias in natura, mas vieram os laboratórios multinacionais e disseram: A patente é nossa e voes têm, que me pagar para usá-la. A ideia básica do socialismo é bastante parecida, pois em tese ela diz que se fui eu fiz, se fui eu que trabalhei, então é meu. Não importa aqui de quem são os recursos, de quem e nem o que está por trás, é meu e ponto final.

Vamos imaginar a cena daqueles trabalhadores da parábola olhando do alto da torre para a plantação pensando a mesma coisa. A posição estratégica do alto da torre também lhes permitia vigiar alguém que chegasse: ladrões, invasores e até quantos emissários o dono está enviando. De repente eles olham e veem alguém se aproximar sozinho e dizem: Quem é este louco que vem sozinho nos enfrentar? Ele se parece muito com o dono. Então disseram uns aos outros: Este é o filho do dono; ele vai herdar a plantação. Vamos matá-lo, e a plantação será nossa.”

Essa experiência de tentar penetrar no coração dos lavradores gananciosos nos ajuda a sentir o impacto dessa parábola que Jesus contou na última semana do seu ministério terreno. Sua intenção era evidente: Ele é filho do dono e o que ele falava explicitamente sobre a sua morte. Israel era a plantação de Deus e os profetas vieram anunciando que a posse era dele e cobrando os frutos de retidão e justiça que o povo deveria estar produzindo. Sabemos bem o que eles fizeram com os profetas. A elite política e religiosa de Israel, que eram os lavradores da parábola, com a mesma defensiva eliminavam todos que ameaçassem sua autoridade sobre a vinha que eles controlavam. Como é que um rabino da obscura Nazaré, chamado Jesus, tem a coragem de entrar sozinho logo no centro nervoso do seu domínio? Imaginem agora o quanto não foi assustadora para a elite essa parábola contada por Jesus no momento em que eles tramavam a sua morte

Mas vamos voltar para a torre. Só que dessa vez o tempo, o lugar e os personagens são outros, mas a mensagem é a mesma. Então o tempo é o nosso tempo e a pergunta é: O que significa essa plantação para nós? Nossa vida? Nossos planos? Nosso futuro? Talvez seja um ente querido, a nossa imagem, nossa carreira ou mesmo nossa igreja. Quando foi que a transição suave do seu para o meu aconteceu sem que percebêssemos? Quando foi que começamos a agir como se a plantação fosse nossa? Quando foi que o nosso serviço fiel a Deus durante os anos nos fez pensar que somos merecedores? Quando foi que passamos a não permitir que ninguém, nem mesmo o Deus eterno, ameaçasse o nosso direito de controlar tudo? A vida é minha! O negócio é meu! Eu vou viver como eu quero!

Estamos sempre prontos a admitir que o dono merece algum crédito por criar os meios de produção, mas afinal de contas fomos nós que fizemos as nossas vidas como elas são, e tudo foi feito por meio dos nossos próprios esforços. Essas palavras imprudentes deveriam nos perturbar porque elas refletem o nosso estilo de vida muito mais do que queremos admitir a nós mesmos e ao nosso Deus. De repente essa parábola tão estranha toma vida e anda. Nós estamos agora na torre que fica no centro da plantação das nossas vidas. O que temos feito dos apelos repetidos de Deus para tomar a posse das nossas vidas? Quantos daqueles que tentaram nos dizer que tudo pertence a Deus temos apedrejado? O que temos feito, então?

Procuremos no nosso talão de cheque e na nossa agenda o quanto temos dedicado para a honra e a glória de Deus. Nós oramos na hora da crise, na hora da necessidade, nós oramos para pedir a orientação de como administrarmos nós mesmos as nossas vidas. Oramos quando a vinha seca para que ele nos renda mais frutos. Contudo, quem pode ler com honestidade essa parábola sem pensar nas vezes que se comportou como aqueles lavradores, tanto como indivíduos quanto como igreja? Como servos de Deus nós somos responsáveis por aquilo que ele nos tem confiado e quantas vezes o filho foi rejeitado por nós, pelas nossas estruturas eclesiásticas e pelo nosso pietismo desconexo? Por conta disso vamos examinar três verdades contidas nessa parábola. (continua)

Ps: A primeira postagem sobre esse assunto foi publicada em 19 de maio de 2015 e pode ser acessada neste link: Lavradores maus.

 
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