Justiça II

Moisés e Jetro, Jan Victors
Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês dão a Deus a décima parte até mesmo da hortelã, da erva-doce e do cominho, mas não obedecem aos mandamentos mais importantes da Lei, que são: o de serem justos com os outros, o de serem bondosos e o de serem honestos. Mas são justamente essas coisas que vocês devem fazer, sem deixar de lado as outras. Mateus 23.23

Jesus censurou veementemente os fariseus de seu tempo que se esmeravam em cumprir certos preceitos da lei, mas se esqueciam de cumprir a essência da lei: a justiça e a obediência a Deus. Como fechamento da narrativa daquela situação descreve com exatidão cirúrgica o despropósito do cumprimento da lei sem levar em conta a justiça: Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo! (Mt 23.24) A lei não nunca poderá ser um fim em si mesma, mas apenas um meio para se atingir o único fim válido, que é a reconciliação de todos os seres humanos, uns com os outros e com Deus. Esse é o fim e o meio desse fim é a justiça.

Outra tendência que nos desmobiliza como cristãos na hora de enfrentarmos as injustiças desse mundo é a índole de evitar conflitos que está enraizada indevidamente em nossas consciências. O conflito é uma coisa ruim, não é? Principalmente os conflitos que temos na igreja. Fomos ensinados que essa conduta não é própria, por isso ninguém, nem mesmo nós os cristãos, queremos a discordância. O problema é que nós nos esquecemos de que a submissão diante da injustiça, de qualquer injustiça contra qualquer pessoa, custa muito caro no fim do que o conflito. Quando os bons cristãos veem templos de outros credos serem queimados e símbolos religiosos que não apreciam sendo vilipendiados e permanecem calados, estão prestando um enorme desserviço à liberdade que o evangelho de Jesus Cristo veio instaurar. O pastor luterano Martin Noemöler, quando estava preso nos campos de concentração na segunda guerra mundial, detalhou em forma de poema a fatalidade oriunda desta omissão:
Quando os nazis vieram buscar os comunistas,
eu fiquei em silêncio; eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas,
eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata.
Quando eles vieram buscar os sindicalistas,
eu não disse nada; eu não era um sindicalista.
Quando eles buscaram os judeus,
eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu.
Quando eles me vieram buscar,
já não havia ninguém que pudesse protestar."

Se a igreja se reserva a tratar apenas dos assuntos que são seguros, que não incomodam e que repercutem bem, nossa união com Jesus Cristo está tragicamente abalada. A união com aquele a quem devemos obediência não depende da nossa concordância, aceitação e muito menos da nossa conformidade. Pelo contrário, é exatamente o contrário. Mas mesmo sabendo disso nos sentimos de mãos amarradas. O que eu posso fazer se sou uma pessoa que não tem voz ativa? Nós não sabemos como agir. O que podemos fazer em favor da justiça em um mundo tão injusto?

O que precisamos fazer de imediato é mudar a nossa mentalidade. Entender que somente podemos amar os outros se formos justos com eles. No livro de profeta Isaías encontramos um bom começo: Aprendam a fazer o que é bom. Tratem os outros com justiça; socorram os que são explorados, defendam os direitos dos órfãos e protejam as viúvas. (Is 1.17)

Vamos começar na igreja local. Nós temos sempre esperado que o pastor seja essa pessoa justa e que ele esteja fazendo a justiça em nosso lugar, por nós. Eu já colaboro financeiramente para isso. Sabemos que o ministério do pastor é equipar a igreja para desempenhar o seu ministério no mundo. É o povo de Deus que tem que inundar o mundo com a mensagem do evangelho. Somos equipados para exercer esse ministério onde quer que estejamos. Cada cristão é um ministro. O que é o ministério de um só pastor comparado à mobilização de uma congregação inteira?

Moisés foi um líder singular livrando o seu povo da escravidão no Egito. Mas isso só aconteceu porque Moisés teve a humildade suficiente para ouvir e aceitar os conselhos de seu sogro. Imagino que muito pouca gente está disposta a fazer isso. Menos ainda de ouvir a sogra. Seu sogro o repreendeu quando viu que ele estava tentando fazer tudo sozinho. Quando Jetro viu tudo o que Moisés estava fazendo, perguntou: Por que você está agindo assim? Por que está resolvendo sozinho os problemas do povo, com todas essas pessoas em pé ao seu redor, desde a manhã até a noite?  (Ex 18.14) Até Jesus, que tinha autoridade divina, escolheu setenta pessoas para disseminar a sua doutrina.

Tiago, o apóstolo, disse bem claramente que as palavras vazias não servem para nada. Por exemplo, pode haver irmãos ou irmãs que precisam de roupa e que não têm nada para comer. Se vocês não lhes dão o que eles precisam para viver, não adianta nada dizer: “Que Deus os abençoe! Vistam agasalhos e comam bem.” Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta. (Tiago 2.15-17) (anterior)

 
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